Ao caminhar para um painel da Associação Americana de Ciência Política (APSA) em 2022, comentei com um colega que o tema da discussão era “o liberalismo em crise”. A resposta foi: “e quando não está?” Dito em tom de brincadeira enquanto atravessávamos os corredores do centro de convenções, o comentário identificou algo verdadeiro. Não era a primeira vez que tal painel aparecia naquele congresso, e tampouco seria a última.
O estado precário do liberalismo hoje é ao mesmo tempo inédito e profundamente familiar para os historiadores do pensamento político. A era europeia das revoluções, de meados do século XVIII a meados do século XIX, foi um período em que valores como liberdade e igualdade humanas ganhavam audiência pública e precisavam ser defendidos. O século XX assistiu à ascensão do totalitarismo e aos piores excessos de crueldade. O retrocesso democrático atual sugere que os indivíduos preferem apoiar governos autoritários a defender direitos políticos para aqueles com quem discordam. Dá vontade de se refugiar em casa e assistir a sitcoms.
Poderia ser pior.
O liberalismo, é claro, é mais do que um conjunto de princípios ou regras formais, institucionais ou jurídicas. É um hábito de caráter, e exige cultivar uma orientação em direção aos valores que formam a base das instituições liberais. Sob essa perspectiva, o liberalismo pode ser entendido como uma prática. Não basta que acreditemos nos princípios de liberdade, equidade e igualdade: precisamos vivê-los em nossos cotidianos. Mais do que uma teoria abstrata, o liberalismo como ideologia informa quem somos como membros de uma comunidade política; a sobrevivência das instituições liberais exige, de fato, que pelo menos alguns de nós adotem e mantenham essa perspectiva.
Uma forma de cultivar esses valores é por meio do engajamento com obras da cultura popular. Até mesmo sitcoms (ou assim espero convencê-lo). Entendo cultura popular como um conjunto de artefatos culturais conhecidos e compreendidos por um grupo significativo de indivíduos de uma cultura. O que até séries como A Grande Família e A Feiticeira podem oferecer, e que John Rawls ou a Rádio Cultura sozinhos não conseguem, é uma forma criativa e afetiva de se engajar com questões e preocupações políticas, em termos imediatamente compreendidos pelo grande público, mas sem os riscos e o desgaste emocional que tantas vezes acompanham discussões sérias sobre acontecimentos atuais. Elas também ancoram nossas reflexões na vida cotidiana dos indivíduos. Como Judith Shklar lembra aos leitores ao considerar o 1984 de Orwell, os temas do romance “são certamente questões que sempre foram importantes para a teoria política, e ao recapturá-las de forma imaginativa, podemos evitar o pior defeito da teoria: falar no vácuo e sobre nada, acumular palavras sobre palavras que não têm nenhuma relação com nada nem ninguém que já tenha vivido e falado no mundo real.”
Ao tirar seu público de si mesmo, essas obras podem ancorá-lo mais eficazmente no mundo real. Mesmo que delas só queiramos uma fuga, elas ainda refletem as preocupações, os pensamentos e os sentimentos tangíveis que, pelo simples fato de ser humano, qualquer um pode identificar e compreender. Isso amplia nossa capacidade de nos relacionarmos com os outros. Para que qualquer arte seja popular, ela precisa tocar em aspectos da vida que já são compartilhados. A partir daí, pode produzir e reproduzir uma esfera discursiva comum de referências que nos permitem abordar problemas políticos a partir de um terreno seguro, do qual podemos nos afastar e desconectar a qualquer momento.
Uma Breve e Seletiva História do Liberalismo na Cultura Popular
A relação entre valores liberais e cultura popular não é nova; é uma característica essencial da história da tradição liberal. Esse vínculo foi especialmente pronunciado nas escritas satíricas, que oferecem uma maneira de criticar a política de forma ao mesmo tempo lúdica e séria. O barão de Montesquieu, o aclamado autor iluminista mais conhecido por seu tratado filosófico O Espírito das Leis, de fato iniciou sua carreira como romancista popular. Em suas Cartas Persas, Usbek e Rica se veem imersos no peculiar ambiente cultural e político de Paris. Sua condição de forasteiros lhes permite observar e avaliar criticamente os costumes e tradições do país, e eles não ficam impressionados. Refletindo sobre os cafés parisienses, Usbek pondera: “Mas o que me choca nesses espirituosos é que eles não prestam nenhum serviço ao seu país, desperdiçando seus talentos em coisas fúteis.” Vistos por seus olhos, esses “espirituosos”, a elite intelectual autoproclamada, desperdiçam seu tempo em conversas banais em vez de contribuir de fato para a sociedade. Por meio de suas descrições vívidas, Montesquieu transporta os leitores para o estado belo, exuberante e, no fundo, superficial que ele atribui à cultura intelectual parisiense.
De início, as autoridades francesas proibiram Cartas Persas, comprovando seu êxito não apenas em satirizar os franceses, mas, mais seriamente, em expor as falhas do Estado francês sob Luís XIV. Montesquieu havia tocado num ponto sensível. A natureza ficcional da obra lhe abriu um caminho para explorar seus compromissos ideológicos em um espaço conceitual distinto. O valor desse espaço está em sua capacidade de conectar-se com os leitores no plano emocional. As formas pelas quais as leis, os costumes e os hábitos são intrínsecos à esfera pública, e servem de fundamento a uma comunidade política (fundamento mais profundo e essencial do que suas regras formais), estão presentes nos retratos mordazes dos salões parisienses tanto quanto no diagnóstico formal da situação francesa em O Espírito das Leis. Embora a forma de escrita e a natureza do apelo difiram, os princípios são os mesmos. Um estudioso observa essa continuidade diretamente, e anota sobre Montesquieu que “os princípios, as formas e os pressupostos permaneceram os mesmos em sua mente do início ao fim de sua vida.”
A tradição dos romances satíricos continuou no século XX, talvez exemplificada de forma mais marcante por textos como o reconhecidamente sombrio 1984, de George Orwell. Nele, a vigilância governamental aparece em sua forma mais extrema. Todo vizinho é um potencial agente do Partido, observando e monitorando as ações uns dos outros. O crimepensar é uma infração grave, e os indivíduos são forçados a convencer a si mesmos de uma versão falsa da verdade, sob risco de punição pelo Estado. Os leitores de Cartas Persas e de 1984 se deparam com ambientes imaginativos nos quais um ceticismo saudável em relação ao governo não é apenas justificado, mas apropriado. Embora essas formas sejam ficcionais, sua função não é. Há uma ideologia, bem como uma moral, na história.
Mas não é apenas nos romances que os princípios liberais foram apresentados e explorados. O crítico literário Paul Cantor, escrevendo sobre a popularidade dos programas de televisão no século XX, discute como Os Simpsons serve para, a um só tempo, zombar das instituições fundamentais americanas e reconhecer sua importância. Em Arquivo X, a representação do governo como secreto e digno de suspeita chama atenção para o que o Estado deixa de revelar. Jornada nas Estrelas, por sua vez, retrata o fim da história, a universalidade dos valores liberais e uma profunda apreciação pelo humanismo. Os filmes infantis também capturam esses ideais. Monstros S.A. oferece mais um exemplo de glorificação do consenso liberal, com o final feliz do filme sendo alcançado quando “a engenhosidade individual impulsionou a produção de energia, aumentou os lucros e seguiu um código ético de conduta.”
Alexandre Lefebvre deu continuidade à tradição de Cantor em seu livro recente Liberalism as a Way of Life. Seu argumento central é que o liberalismo não é apenas uma teoria política, mas uma forma de viver, cultivada no cotidiano e reconhecível na cultura popular.
No Brasil, esse espírito habita Lineu Silva de A Grande Família: funcionário da vigilância sanitária, honesto, metódico e zeloso com as normas, num ambiente doméstico que parece conspirar contra toda tentativa de ordem. Lineu não defende as instituições por obrigação; defende porque acredita que são elas que tornam a convivência possível. É o servidor público que Locke reconheceria: alguém que acredita, sem ironia, que zelar pela coisa pública é zelar pelos outros. Ou considere Chaves, que oferece uma meditação sobre como as pessoas deveriam concentrar-se na forma como tratam umas às outras, e não nas crenças conflitantes que sustentam. Ao conviver no mesmo espaço, criam-se vínculos que jamais se formariam fora dele. O laço improvável entre Seu Madruga, o vizinho pobre que sobrevive com um quinhão de dignidade, e Dona Florinda, a vizinha pretensiosa que raramente perde a chance de lembrá-lo de sua posição social, exemplifica exatamente isso. Eles discordam em quase tudo, e ainda assim são inseparáveis no cotidiano da vila. O que importa, em ambos os casos, é a capacidade de despertar valores comuns onde menos se espera encontrá-los.
Como a Cultura Popular Funciona
A cultura popular mobiliza uma capacidade imaginativa de fundo, que os membros de uma comunidade podem achar intuitiva e usar como veículo para dar sentido a valores e princípios liberais. A cultura popular pode simultaneamente criar e reforçar nossa identidade como indivíduos, espelhando nossos valores e princípios, e pode nos orientar para fora, em direção a outros membros de uma comunidade política. Assistir a filmes ou programas de televisão pode oferecer um recurso de inspiração pessoal, entregando um valor que nos importa em um contexto completamente diferente, que normalmente não experimentaríamos diretamente. Dessa forma, até mesmo as sitcoms são análogas a mil pequenos experimentos de pensamento filosófico. Elas estimulam os espectadores a discutir cenários da forma que gostaríamos que os filósofos fizessem, mas sem o jargão analítico que geralmente acompanha essas discussões. Elas levam pessoas comuns a conversar entre si sobre situações imaginárias, mas acessíveis. A maioria delas, de forma bastante significativa, foca em outras pessoas comuns.
O historiador Benedict Anderson argumentou que artefatos como o romance são um mecanismo essencial para a construção nacional. Essas obras oferecem uma forma de conceber a si mesmo como parte da “comunidade imaginada” de desconhecidos, os concidadãos com quem não podemos nos encontrar pessoalmente, mas com quem compartilhamos uma identidade comum. Os Simpsons foi o programa de televisão americano por excelência precisamente porque há um personagem com quem cada indivíduo pode simpatizar e se identificar, mesmo que apresentado de forma absurda e hiperbólica. Moradores de cidades grandes e pequenas estão igualmente familiarizados com elementos como o bar do bairro e o mercadinho da esquina, e a prefeitura inoperante que não consegue concluir obras públicas. A cultura popular, assim, aprofunda nossa autocompreensão coletiva e individual, oferece um meio de conexão com os outros e amplia nossa capacidade de reconhecer semelhanças com um grupo mais amplo de indivíduos.
Mas não basta demonstrar que existem formas liberais de cultura popular, ou que cultura popular e liberalismo são compatíveis. Qualquer ideologia terá obras e gêneros populares que lhe são especialmente próprios; conservadores americanos e britânicos, por exemplo, são particularmente afeiçoados a romances de espionagem. Também não é suficiente discutir o valor que a cultura popular tem em geral para uma comunidade política. Qual é o valor distintivo da cultura popular para os espectadores liberais? Um exemplo ilustrativo, antecipado na introdução, é a forma como essas obras facilitam a apreciação pela diversidade, essencial à crença liberal no pluralismo. As sitcoms oferecem uma ilustração útil desse ponto, na maneira como despertam nosso senso de humor, nos lembram de rir de nós mesmos e nos oferecem novas perspectivas para refletir.
Considere, por exemplo, A Grande Família e A Feiticeira, duas produções que desafiavam o modelo ideal de família, cada uma a seu modo.
A Grande Família existe em duas versões separadas por três décadas, mas com o mesmo argumento implícito. A família nuclear idealizada, com pai provedor, mãe dedicada e filhos que crescem e partem, nunca descreveu a realidade da maioria das famílias brasileiras. A série mostrou o oposto: filho adulto que não sai de casa, genro que se instala para sempre, contas que não fecham, improviso como modo de vida. O que poderia ser retratado como fracasso, o programa tratava como normalidade. Na versão original, exibida de 1972 a 1975, esse retrato funcionava como contranarrativa à imagem de família produtiva e harmoniosa promovida pela ditadura. No remake, exibido entre 2001 e 2014, a série manteve o mesmo olhar: o país celebrava a ascensão de uma nova classe média, e os Silva continuavam a não caber no enquadramento. Os conflitos domésticos, o dinheiro que nunca sobra, o Agostinho que nunca vai embora: esses elementos eram reconhecíveis para uma parte significativa do público, que via na tela a sua própria família, e não um ideal distante. Ao retratar sem julgamento o que a publicidade chamava de fracasso, a série estimulava a aceitação de arranjos familiares que nunca foram exceção, apenas invisíveis.
A Feiticeira, em particular, desafiou o papel tradicional da dona de casa por outro ângulo. Samantha, criada por bruxas, nunca aprendeu a etiqueta exigida para a vida doméstica que ela e Darrin se propuseram a seguir no casamento. Ela não sabe cozinhar nem limpar, e é péssima em encantar o chefe de Darrin. Ela não tem nenhum dos atributos que uma esposa adequada deveria ter à época. Na verdade, resiste ativamente a esses atributos, com seu forte senso de independência e disposição de falar de forma franca e aberta. No entanto, o programa não narra como ela aprendeu seu lugar correto no mundo; pelo contrário, narra como o mundo muda ao seu redor. Darrin se frustra e se irrita às vezes, mas os episódios terminam muitas vezes com duas pessoas se encontrando e se aceitando. Ele não a força a mudar, nem ela quer. Em vez disso, o lar deles é um tipo diferente de lar em relação aos que conhecem. Isso novamente contesta uma versão idealizada e estabelecida da sociedade, para oferecer uma narrativa diferente sobre o que os indivíduos podem ser.
Judith Shklar nos lembra que não é suficiente constatar o fato do pluralismo; precisamos celebrá-lo. Assistir a sitcoms é uma forma de fazê-lo. Elas podem ampliar nossos horizontes e desafiar a forma como pensamos sobre o mundo. A exposição a novas ideias fomenta um senso de humildade epistêmica, lembrando-nos de quão pouco sabemos sobre a vida dos outros. A familiaridade das sitcoms também oferece um recurso para criar vínculos e se relacionar com os outros. Embora possamos não saber muito, há coisas que todos compartilhamos. Se as pessoas importam, aquilo a que elas assistem também importa. Portanto, não devemos abandonar nossas referências culturais compartilhadas em favor de um discurso interminável sobre as notícias ou debates filosóficos constantes e insolúveis sobre o significado da liberdade. Ser liberal na prática exige viver uma vida no mundo real com os outros, e isso, por sua vez, envolve reservar um tempo para assistir a sitcoms.
Tradução do texto https://www.liberalism.org/p/sitcoms-a-defense


